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Relacionamentos. Do conflito ao abuso

Publicado em 13/07/2020 08:00

Relacionamento de dependência.

A dependência emocional se dá dentro de relações interpessoais em que uma pessoa se vê vinculado a outra por uma relação de sofrimento, caracterizado por comportamentos aditivos, ou seja, comportamento em que o indivíduo se utiliza inconscientemente de tal recurso como um atalho para evitar o sofrimento. Essa pessoa vai fazer coisas, sem perceber, como brigar e tentar manipular o companheiro para evitar resolver seus próprios problemas. Sem perceber a pessoa manipula, briga, faz chantagens para obter da outra pessoa atenção e para que o outro aja da forma que ela deseja.

Uma relação de dependência se caracteriza por padrões de comportamento complementares dos envolvidos. Pessoas carentes afetivamente, que precisam do olhar do outro para existirem, atrairão pessoas que demonstrarão sentimentos de ciúmes, raiva, tentativas obsessivas de controle e manipulação e, assim, ambos viverão um amor aparentemente incondicional, conflituoso e insatisfatório pois a busca de realização está sempre na satisfação do outro. (De Lima, 2006)

Dependência e codependência emocional nas relações interpessoais

Como estabelecer o limiar entre normal ou patológico quando tratamos de relacionamentos amorosos? Assim como no jogo, sexo, compras, ciúmes e outros comportamentos compulsivos, a caracterização de tal conduta se dá pelo comportamento repetitivo e sem controle de prestar cuidados ao companheiro e, ainda, “atenção excessiva ao parceiro com intenção (nem sempre revelada) de receber seu afeto e evitar sentimentos de menos valia”. (Sophia, et als., 2008, p. 202)

Os autores supracitados referem-se, ainda, que tal atitude, ao ser mantida pelo portador, após concretas e reiteradas evidências, prejudicando a sua vida e a de seus familiares, configura uma situação de amor patológico.

O problema em questão apresenta características de outros comportamentos compulsivos semelhantes às adicções (jogo, sexo, compras) e, Sophia et. Als. (2008), apontam seis critérios diagnósticos comuns a estes:

Sinais de abstinência – quando a/o parceira/o se ausenta ou diante de ameaça de abandono.

Os cuidados são excessivos em relação a/ao parceira/o – ao ponto do parceiro se queixar dos excessos.

Atitudes para controlar o comportamento de cuidados excessivos são malsucedidas.

Controle excessivo com relação às atividades da/o parceira/o (a).

Abandono dos próprios interesses para cuidar e viver a vida da/o parceira/o.

O relacionamento é mantido apesar dos problemas causados pela dependência emocional.

Assim como nas outras adicções, o dependente emocional apresenta comportamento obsessivo e compulsivo em relação ao parceiro. Vive a emoção de “amar demais” e permite que esse sentimento comande sua afetividade. Os dependentes afetivos possuem baixa autoestima, sentimento de menos valia, buscam transformar o parceiro em pessoas ideais na tentativa de resgatar os pais que não conseguiram transformar na infância, colocam esse amor no lugar da afetividade que deveria ter sido dada por estes pais, sempre muito desejada e que, até então, não ocorreu. (De Lima, 2006)

Ao lado de um dependente emocional há um codependente que sustenta a relação. A codependência resume-se a depender da dependência do outro. “O codependente não se vincula com o outro, ele se aproveita, sofre e promove o sofrimento justamente por apresentar dificuldade em se relacionar”. (Zampieri, 2004b, pg. 140)

O codependente repete os mesmos comportamentos infantis para ser aceito e amado, tenta aliviar a dor e o sofrimento por sentir-se abandonado, paradoxalmente, tende a perpetuar estes sentimentos. Estabelece um vínculo defeituoso que carrega o medo da perda do relacionamento e do abandono, apresenta preocupações com o que os outros pensam, culpa e tentativas de reparar danos. (Sophia, Tavares, Zilberman, 2007)

Segundo Zampieri (2004b, p. 140), assim como o dependente, o codependente tem atitudes de dedicação ao bem-estar do outro, neste sentido dá mais do que recebe, resultando em sensação de que foi abusado e negligenciado, sente-se desvalorizado, usado e arrependido. Todo esforço em controlar o outro é inútil, pois este “não demonstra gratidão”.

São relações paralelas, enquanto o dependente estabelece uma ligação incontrolável com seu objeto de desejo (o parceiro), o codependente desenvolve uma relação de sujeição ao outro, no sentido de temor de ser abandonado, assim, a relação se torna objeto do vício. (Carvalho, 2011)

Há uma tensão permanente para que a relação se mantenha. O codependente se envolve de forma obsessiva nos problemas e na vida do dependente, ocasionando a este interferência negativa e desiquilíbrio em sua vida pessoal, social, familiar e profissional. (Hernández Castañón, 2007; Carvalho, 2011)

O codependente é aquele indivíduo que se sente à vontade ao lado de pessoas “fracas” e que “precisam dela”. Zampieri (2004a) esclarece que o conceito de codependência mudou seu significado com o tempo. A autora propõe que a codependência seja entendida como um Transtorno de Personalidade que precisa ser tratado porque leva o sujeito a agir de forma disfuncional dentro da família, do trabalho e em seus círculos de amizade. Pode acontecer com homens e mulheres. No relacionamento afetivo não há conversas às claras o que resulta em muito rancor, que vai crescendo na medida que a fantasia o alimenta, quando ocorre o pensamento mágico de acreditar que sabe o que o outro pensa ou, mesmo, o que esperar do companheiro, dificultando o diálogo.

A codependência é um estado emocional em que o indivíduo demonstra comportamentos como necessidade de controle do outro, manipulação, instabilidade, medo de errar, insegurança, competição, disputa para ter razão, abatimento, mau-humor, justificativa para o insucesso, raiva, frustração, baixa autoestima, desespero, decepção.

“A conduta dos codependentes é determinada por forças externas e não por decisões voluntárias”, relacionada a um modelo de disfunção familiar, há um manejo inadequado dos sentimentos e procura constante de proteger e desculpar o dependente, bem como, aparecimento de doenças psicossomáticas e depressão.  (Perez & Delgado, 2003, Pg. 382).

A codependência é uma condição emocional, que afeta as relações afetivas dos indivíduos, que se desenvolve desde a infância em ambientes opressivos, que não estimulam a expressão de sentimentos e a conversa franca sobre problemas pessoais e interpessoais.  Esses indivíduos que cresceram em um ambiente hostil vão aprendendo sua insignificância, carências e necessidades afetivas e envergonham-se por isso. Vão descobrindo que não podem ser amados, mas, podem ser úteis. Não possuem liberdade para expressar suas necessidades de afeto e confiança e se sentem abandonados por seus cuidadores. Não raro, assumem, muito cedo, o lugar de pais o que lhes dá uma posição de superioridade perante os outros. Ante a vivência inadequada de responsáveis por seus pais ou família vivem sentimentos ambivalentes de superioridade e inferioridade, já que são seres que desenvolveram baixa autoestima diante do abuso psicológico que sofreram. (Zampieri, 2004A)

A codependência advém de um modelo de família disfuncional, na qual a disfunção converte-se em um estilo de vida, situação que promove o isolamento da família das relações sociais e a imposição de regras confusas e, muitas vezes rígidas e injustas, que afetam todos os membros da família. Dessa maneira o indivíduo, ainda criança, se vê envolvido em conflitos familiares introjetados de maneira a parecer natural. Esse estilo de vida pode desenvolver, no futuro, uma personalidade codependente, facilitando o desenvolvimento de relações conflituosas ou adições. (Castanõn, 2007)

Trata-se de um comportamento do qual o indivíduo precisa perceber e aprender a lidar, até mesmo se livrar. Em muitos casos, isso significa romper um relacionamento patológico, o que é muito difícil para o codependente.
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Graciela Comparin

Psicólogo
CRP 14/06244-5 MS

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Responsável técnica:
Dra. Thais Correia Leone Della Pace
CRM/MS 4056
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